Com música e dança, Corredor Cultural destaca cotidiano e minorias sociais

Julho 23, 2019

Foto: Isabela Veiga

 

Texto: Daniel Almeida

O Choro cantado do grupo Flor de Aguapé, de Ribeirão Preto (SP), espantou o dia nublado de Ouro Preto e atraiu turistas e moradores da cidade para o Largo da Alegria, na rua São José, na tarde de 21 de julho. Formado por Leonardo Freitas, no teclado; Alexandre Prez, no cavaquinho; Jacque Falcheti, no vocal; e Ricardo Perez, na percussão, o quarteto tocou canções do primeiro álbum de estúdio da banda, entre elas: “Zeferina”, “Fulano” e “Casa velha”.

Veteranos no Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade, Flor de Aguapé cantou as dores e as delícias da vida cotidiana na apresentação desta edição do Festival. Segundo o cavaquinista Alexandre Prez, o Choro é o ritmo que fala do dia a dia do brasileiro e de suas raízes. “É a nossa música! Ela não pode ser deixada de lado. O Corredor Cultura populariza o estilo musical que a mídia não dá espaço”, destacou.

O primeiro álbum do Flor de Aguapé, que leva o mesmo nome do quarteto, é fruto de uma ação cultural governamental. A vocalista Jacque destaca a importância do investimento do poder público na cultura e na arte. “Sem esses incentivos, muita coisa é inviabilizada, muitos festivais deixam de ser realizados e muito se perde com isso. A produção de artistas autorais é uma delas”, pontuou.

Pela segunda vez no Festival, a banda foi recebida com aplausos e muita agitação. A dentista Andréia Kattah, 53, que mostrava samba no pé, enalteceu a habilidade vocal de Jacque e o poder afetivo das músicas do grupo. “A voz dela é doce e fala a verdade sobre a vida, sabe? Fui criada entre seresteiros, então, é só ouvir o cavaquinho e uma música melancólica que logo lembro da minha infância, do lado dos meus tios e das canções dos apaixonados”, completa. Andréia ainda comentou sobre a felicidade de rever a vocalista: “Ano passado, fiz uma oficina de canto com a Jacque. Ela nos ensinou a empostar a voz para espantar os males”.

O disco “Flor de Aguapé” é composto por canções de músicos de Ribeirão Preto (SP). O grupo dá um toque sofisticado e delicado aos impasses da vida. Além de próprias músicas, o quarteto homenageou Araci de Almeida, ao cantar “Fez Bobagem” e “Engomadinho”. O “Flor de Aguapé” mostrou toda sua habilidade e gingado ao tocar a última música da apresentação, “Meu Rádio, Meu Mulato”, de Zélia Duncan, no mesmo ritmo da bateria da escola de samba Império do Morro do Santana, que se aproximava do palco do Corredor Cultural. 

O show do grupo “Flor de Aguapé” foi encerrado com a apresentação da companhia de dança ID Experimental, que trouxe a intervenção urbana “Corpocidade”. Carla Gontijo, Elina Penna, Iara Araujo e Natália Dutra, integrantes da cia de dança, executaram o espetáculo “SerTão”, uma homenagem à cultura das pessoas que vivem na área rural de Ouro Preto. As dançarinas, que usavam vestidos floridos e ternos pretos foram acompanhadas pelo sanfoneiro Francisco Minervino, que dava mais sentimento e dramaticidade à intervenção.

Sandra Messy, 55, estadunidense e professora de tênis, pela primeira vez no Brasil e no Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade, enalteceu a proposta do Corredor Cultural de levar arte e entretenimento para as ruas da cidade. “A experiência de assistir a um espetáculo de dança na rua é totalmente diferente de ver em um lugar fechado. A arquitetura da cidade ajuda a compor o cenário da apresentação. Renovou a minha alma!”, pontuou.

O último Corredor Cultural desta edição do Festival foi encerrado com a apresentação de Adriano George e Confraria do Groove nas Universidades. O grupo de instrumentos de metais convidou a ex-backing vocal do Jota Quest, Adrianna, para agitar a rua São José. A combinação do trompete do Adriano, com o saxofone do Osmar Júnior e do trombone do Miguel Parça, com a voz poderossíma da Adrianna, fez o chão do Largo da Alegria tremer.

Há 25 anos no mundo da música, Adrianna apresentou as canções que compõem o seu novo dvd de Black music “Antes de abrir os olhos”. Entre os sucessos estão “Absurdo”, “O que tem para dizer” e “Masculino e Feminino”. Essa última é uma homenagem ao seu filho, um homem trans. A letra que fala sobre a luta contra a LGBTQI+fobia. Adrianna ressaltou a importância de combater o preconceito contra a comunidade LGBTQI+ e reforçou também a necessidade do posicionamento político dos artistas perante o governo atual do País. “Estamos em um momento de intolerância e silenciamento. Nós, como artistas, temos “sim!” que nos posicionar contra a LGBTQI+fobia, o racismo e o feminicídio. Isso existe e mata inúmeras pessoas!”, destacou, emocionada.

A pedagoga Lorany Godoy, 32, destacou a representatividade social que é ter uma mulher negra no palco do Corredor Cultural sendo aplaudida por todos nas ruas São José e Getúlio Vargas. “Ela valorizar a nossa cultura afro-brasileira. O lugar que ela está, agora, mostra que “sim!”, podemos, devemos e temos competência para estar nesses lugares de prestígio!”, finalizou.