Cortejo reverencia tradição tropeira no último dia do Festival de Inverno

Julho 22, 2019

Foto: Patrícia Milagres

Texto: Raíssa Lessa
 

O Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade despediu-se, nesse domingo, 21 de julho, com o Cortejo dos Tropeiros da Serra de Ouro Preto. A concentração começou às 9h, no Espaço Cultural Cores, Flores e Sabores, no Morro São Sebastião, em Ouro Preto. De lá, o grupo passou pela Praça Tiradentes e seguiu para a cidade de Mariana, onde aconteceu o encerramento da cavalhada com um grande banquete de comida típica e diversas atividades culturais.
 

Nem o frio espantou os cavaleiros e seus acompanhantes, que, aos poucos, foram chegando à concentração. O clima na reunião era de alegria e reencontro entre os presentes, em sua maioria, filhos e netos de tropeiros, que conversavam e contavam causos de família enquanto arrumavam os animais para a saída do cortejo. Até os enormes balaios em que os burros da tropa carregavam as mercadorias foram embelezados para a festa, assim como os cavalos, que adornavam belas tranças e muitos laços de fita. Ao longo do caminho, alguns cavaleiros e cavaleiras se juntaram à tropa e seguiram rumo à Praça Gomes Freire, em Mariana.
 

Um dos primeiros a chegar ao local, o tropeiro Cassimiro Feliciano Mendes, de 68 anos, natural de São Bartolomeu (distrito de Ouro Preto) e morador do Morro São Sebastião, veio montado a cavalo, trazendo ainda dois burros de sua tropa para compor o cortejo. Ele diz que começou a “tropeirar” aos 18 anos, porém, aprendeu o ofício ainda criança, auxiliando seu pai, também tropeiro, a campear os animais e apanhar lenha. Cassimiro frequenta essa cavalgada desde o primeiro encontro do grupo e não esconde a alegria em participar sempre que pode. “O cortejo é uma maneira boa de reunir os amigos e é um divertimento. Eu acho bom demais, uma alegria, e nós precisamos de alegria para viver bem”, conta.
 

A cavalgada é um evento realizado anualmente, desde 2013, pelos Tropeiros da Serra de Ouro Preto. Neta e filha de tropeiros, a enfermeira Elisângela Guimarães (44), uma das fundadoras da associação, relata que o grupo foi criado para celebrar a vida e o labor desses trabalhadores. “Os tropeiros têm uma vida muito dura trabalhando na roça; então, é importante manter a lembrança deles viva”. Ela sempre participa das cavalgadas acompanha do irmão, o metalúrgico Luiz Carlos Guimarães (52), que também é membro do clube. Luiz, que adora andar a cavalo, descreve que aprendeu a montar ainda criança, observando o pai e os irmãos mais velhos. “Minha mãe fala que, quando eu tinha de cinco para seis anos, eu já montava a cavalo. Meu pai tropeirava, e nós o ajudávamos e, sempre que tinha uma oportunidade, eu montava. Era a nossa brincadeira de criança”, conta.
 

Para ele, é uma felicidade incluir a cavalgada na programação do Festival de Inverno. “As cidades de Ouro Preto, Mariana e o entorno foram desenvolvidas a partir das atividades comerciais dos tropeiros, e o Festival é um evento grande que contribui para a manutenção da memória da nossa tradição”, completa.
 

Gabriela de Lima Gomes, pró-reitora adjunta de extensão e coordenadora geral do Festival de Inverno, enfatiza a importância de trazer o cortejo para a programação do evento, que, em 2019, tem como tema central “Diálogos com os sertões das Gerais”. “O Festival, este ano, busca um diálogo com os sertões das Gerais, o que significa voltar o olhar para aquilo que forma a identidade da região, e a tradição dos tropeiros é formadora da sociedade ouro-pretana. Nós devemos a esses comerciantes a manutenção da vida e a construção da cidade. Portanto, relembrar e destacar essa cultura descentralizada de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade foi o nosso objetivo nesta edição”, conclui.