Espetáculo “Esperando Godot" supera expectativas do público

Julho 21, 2019

Foto: Larissa Pinto

Texto: Narrian Gomes

As condições de vida precárias que marcam a Europa pós-Segunda Guerra Mundial são o cenário da peça de teatro “Esperando Godot”, de Samuel Backett. Nada mais interessante, então, que ela fosse reencenada em um espaço que demonstre essa miséria. Em uma analogia abstrata, com as dificuldades enfrenadas pelo Brasil pós-eleitoral, econômica e socialmente em dificuldades, o Aterro Sanitário de Ouro Preto foi o cenário para a adaptação da peça, apresentada dia 19 de julho, no Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade.

“Esperando Godot”, peça escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Backett, foi encenada pela primeira vez em 1952, em um pequeno teatro de Paris. Dado o sucesso que fez, é hoje a principal peça que designa uma vertente do teatro chamada “teatro absurdo”, com obras que fundamentalmente abordam, de forma inusitada e diferentes, aspectos da sociedade. Nos quase 70 anos de produção, a peça que começou pequena e se tornou um clássico, já foi traduzida para diversas línguas e rodou o mundo.

Estragon e Vladimir, ou Gogo e Didi, são dois amigos que vivem em situação de rua e esperam por Godot, algo ou alguém que supostamente tem o poder de os tirar da miséria. Quem é Godot e de onde ele vem são perguntas que não podem ser respondidas, mas Gogo e Didi esperam fielmente por ele, próximos a uma árvore onde alguém afirmou que Godot disse que os encontraria.

A adaptação da peça é um Trabalho de Conclusão de Curso de Gabriely Lemos, que trabalhou na direção, e Tarcísio Vória, que interpretou o personagem Didi. Ambos graduandos do curso de Artes Cênicas da UFOP, foram orientados pela professora do Departamento de Artes Cênicas da UFOP Lucienne Guedes Fahrer, e tiveram como auxilio no elenco, figurino e produção alguns amigos, alunos e professores do departamento.

A escolha do Aterro Sanitário de Ouro Preto carrega muitos significados por si só, uma vez que apresenta uma realidade muitas vezes ignorada. A forma como a sociedade se desfaz de coisas e a forte relação com o desperdício, além da falta de cuidado com o meio ambiente, despertam essa consciência adormecida pelo cotidiano, esclarece Marina De Nóbile, uma das produtoras da peça.

A produção do trabalho  encontrou dificuldades, uma vez que o espetáculo foi apresentado em um espaço tóxico, e a adaptação da obra carregava uma grande responsabilidade. Lucienne Fahrer, por exemplo, no texto do folheto de divulgação do trabalho, compara o desafio de orientar a produção e o desenvolvimento da peça ao enfrentamento entre Davi e Golias. Porém, o resultado final sensibiliza o público, que se mostrou muito satisfeito com o que viu. Almando Storck Júnior, um dos expectadores e também aluno do Departamento de Artes Cênicas da UFOP, afirma que a montagem superou as suas expectativas. “Por ser um texto que trata da nossa incomunicabilidade e da miserabilidade moral e ética da humanidade, com pitadas de humor ácido, a escolha do Aterro Sanitário da cidade para a montagem não poderia ter sido mais feliz e incômoda ao mesmo tempo”, completa.