Espetáculo “O Abajur Lilás" promove reflexão sobre o cenário político do Brasil

Julho 23, 2019

Foto: Larissa Pinto

Texto: Carolina Carvalho

 “O Abajur Lilás”, peça de Plínio Marcos escrita em 1969, foi encenada no Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade, no dia 19 de julho, no Teatro Ouro Preto do Centro de Convenções da Ufop. A peça remonta a rotina de um prostíbulo e narra, principalmente, a relação de Giro, um cafetão homossexual, com as prostitutas Dilma, Célia e Leninha. Censurado durante 11 anos, durante a ditadura, o espetáculo foi encenado por alunos e ex-alunos do curso de Licenciatura em Artes Cênicas da UFOP, como forma de estabelecer uma relação entre a situação da época e o panorama político atual do País.

A narrativa se estabelece com os tensionamentos vividos no prostíbulo, na relação de poder existente entre o cafetão Giro e as prostitutas. O texto original foi minimamente adaptado para a atualidade e continua denso e chocante, porém, ao mesmo tempo, possui momentos bem humorados que arrancaram risadas do público presente. O cenário principal é o quarto das prostitutas. Quando um momento acontecia fora daquele ambiente, os atores utilizaram, também, espaço fora do palco, entre as poltronas na plateia, para completar a encenação.

A apresentação provocou comoção no público, por meio de cenas de torturas e violência contra a mulher, nas quais Plínio buscava denunciar as mazelas do período ditatorial no Brasil. Thatiane da Silva Pereira, professora do Estado do Rio de Janeiro, conta que não conhecia a peça antes. “Achamos que era um texto criado pelos próprios estudantes, para o momento atual, mas nos surpreendemos quando falaram que se trata de uma peça que foi escrita em 1969”, comenta. Já Carolina do Nascimento Campos, que também é do Rio de Janeiro e está em Ouro Preto especialmente para o Festival de Inverno, atenta para a diversidade cultural e temática presentes na programação do evento.

Adrianno Soares, que interpreta o cafetão Girofala sobre a história do autor da peça. “O Plínio trazia à tona, nessa peça, a tortura. Ele gostava de escrever sobre o submundo, de falar sobre prostitutas, cafetões, gays bem afeminados… tudo aquilo que, na época, era mal visto. Isso porque o teatro era um espaço frequentado somente pela burguesia, e ele queria apresentar para essas pessoas as posições mais marginalizadas, mas com uma linguagem bem própria desse submundo”, conta. Adrianno é um dos principais idealizadores do espetáculo, já que a ideia surgiu com o seu próprio Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Interpretação, junto do TCC do diretor Gustavo Ferreira. Adrianno conta, ainda, que a peça só pôde ser encenada, pela primeira vez, no ano de 1980. “Plínio queria que a peça dele ficasse datada. Não era a intenção dele que essa peça, tantos anos depois, ainda provocasse a identificação do público. E hoje, 50 anos depois, ela ainda continua a fazer sentido para nós, essa é a crítica”, conclui.

Gustavo Ferreira, diretor do espetáculo, reflete sobre a relevância de tratar de temas como a tortura num evento como o Festival de Inverno. “Trazer essa peça ao Festival é muito importante, porque é um texto muito político, e este evento vai para além da universidade ou da comunidade, também alcança pessoas de outros lugares do País”, comenta. Gislayne Érika, que dá vida à prostituta Dilma, comemora a plateia atenta e diversificada. Ela conta, ainda, sobre o processo de pesquisa para a interpretação: “Foi longo. Assistimos seriados, notícias de jornais… fomos na Guaicurus [rua de prostíbulos em Belo Horizonte], conhecemos três casas de prostituição, alguns cafetões também. Foi tudo muito pesado. Encontrei a Dilma depois que fui lá, porque, antes, a personagem ainda estava mais leve. Só depois de conhecer aquelas mulheres que entendi o peso que ela devia ter de verdade”, analisa.