Espetáculo infantil aborda temáticas contra o preconceito no bairro Padre Faria

Julho 20, 2019

Foto: Sabrina Mikaelle

Texto: Ivan Vilela

A Praça Mestre Augustinho, no bairro Padre Faria, em Ouro Preto, foi contagiada pela alegria de uma peça infantil “Xabisa”, na sexta, dia 19 de julho. Com poucas falas, mas com muita energia e interação com o público, o espetáculo colocou as crianças para correr e arrancou sorrisos e gargalhadas, além de fazer uma reflexão importante sobre gênero e luta contra o preconceito racial e misógino.
 

Com um cenário simples composto por um biombo, a peça é realizada há cerca de um ano e meio e composta por apenas dois atores: Michele Sá, de 32 anos, e Alexandre de Sena, 40 anos, de Belo Horizonte. Segundo Michele, a ideia de fazer um teatro de palhaços voltado para o público infantil, que abordasse temáticas antipreconceito, foi sendo construída aos poucos e se relacionando cada vez mais com assuntos como a negritude, o poder feminino e o autorreconhecimento. “Essa peça que não tinha pretensão de falar sobre esses temas, ao longo do tempo, foi se transformando nesse espetáculo de palhaços que traz o que eu sou, o que é o ‘Xande’, além do que queremos contar e falar para as pessoas”, explica.
 

A construção do palhaço também é uma questão muito presente no espetáculo. Ao fugir dos padrões do personagem tradicionalmente conhecido, os atores buscam ressignificar o próprio ofício da atuação e o papel dos atores negros. Segundo Alexandre, havia um preconceito racial no início dos estudos clown (trabalhos dedicados à arte de palhaços). “O que era considerado ridículo na época era justamente a pele e a vivência das pessoas negras. E nós achamos muito cruel esse olhar. Então, fomos buscando cada vez mais fundo o que seria a nossa vontade de palhaço/palhaça negro/negra dentro das nossas origens”, afirma.
 

Sandra Cristina Freitas tem 45 anos, é natural de Ouro Preto e tem acompanhado as diversas atrações do Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade. Para ela, é muito importante ter atrações que abram a mente das pessoas. “A peça faz a gente pensar e isso já tem que começar cedo com as crianças, para acabar com o preconceito que temos com a mulher, o homem, o negro e interagir todo mundo. Nós precisamos de cultura e arte para abrir, cada vez mais, a cabeça das pessoas para essas questões”, defende.
 

Mesmo sendo de palhaços e atrair um público infantil em sua maioria, por meio de suas abordagens, o espetáculo traz uma reflexão importante para a sociedade, interessando também os adultos. Alexandre reitera que, ainda que o público fosse formado por diversas crianças, a peça atraiu, além dos pais, pessoas que trabalham no Festival e adultos da comunidade. “Isso é importante para mostrar que a temática não é só para adulto entender e palhaço não é só para criança”, acrescenta.