Espetáculo itinerante no bairro Padre Faria reflete sobre a liberdade da mulher no terceiro dia do Festival

Julho 9, 2019

Foto: Anthony C. Fernandes

Texto: Letícia Lopes

O bairro Padre Faria, em Ouro Preto, recebeu na tarde de ontem, a peça “Daquele Naipe”, interpretada pela atriz Isabela Freiria. A apresentação, que integra a curadoria de Artes Cênicas do Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade, contou a história de quatro mulheres e suas respectivas buscas pela liberdade dentro da sociedade machista. Sem palco fixo, as tramas aconteceram pela rua, em formato itinerante, sendo a primeira cena em um bar, e a última em uma quadra do bairro. A ideia é tomar o espaço público urbano para mostrar e falar de questões atuais e importantes sobre as vivências da mulheres.

De véu e vestido branco, a primeira personagem chega ao bar em uma bicicleta, fugindo do próprio casamento. Toma um gole de cerveja e desabafa sobre o relacionamento abusivo em que vivia e do qual, só na hora de se casar, teve coragem de se libertar. A segunda personagem, de touca na cabeça e brigadeiro nas mãos, era Maria da Consolação que, agora que se tornara viúva, podia vender seus doces. Camomila, a terceira das quatro, só queria beber café e fumar sem ser julgada. Em manifesto, gritava que queria ser livre. A última personagem casou-se consigo mesma. Bebia, comemorava, dançava e repetia que era o próprio carnaval. Sem precisar de ninguém, consumou a união dela e do amor próprio. Assim, tudo terminou, literalmente, em festa. 

A peça é fruto do Trabalho de Conclusão de Curso de Isabela Freiria, bacharel em Interpretação pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). A temática e a construção do trabalho surgiram a partir de inquietações individuais e coletivas sobre o que é ser mulher. A mensagem que se procura entregar ao público é de que: “Nós, mulheres, temos sempre que buscar o amor próprio. Nos amar antes de amar nosso próximo. Saber dos nossos limites e não esquecer disso”, diz a atriz. 

A plateia era diversa: amigos convidados, clientes do bar, moradores que saíram às sacadas e janelas, crianças que jogavam bola e pessoas que caminhavam pelas ruas. Olhares atentos e por vezes espantados receberam e participaram da peça. Patrícia Silva, moradora do bairro Padre Faria, conta que adorou o espetáculo e se sentiu representada “Eu me vi ali na cena do casamento”, afirma. Ela aproveita para fazer um pedido: “Tem que ter mais teatro por aqui”. A cabeleireira Priscila Brum também se enxergou nas personagens e chamou atenção para os casos de assédio: “Achei o tema muito importante, porque eu mesma já vivi situações assim. Serve para conscientizar a galera”, enfatiza.

A peça já foi apresentada em diversos locais, como os bairros ouro-pretanos Vila Aparecida e Piedade, e também no Recife (PE). A intenção da atriz e dos produtores é de seguir levando o espetáculo a vários lugares. 

Daquele Naipe faz parte da programação do Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade. Confira a programação completa no site.