Oficina sobre Congado discute possibilidade de mais registros dessa manifestação cultural

Julho 9, 2019

Foto: Joice Valverde

Texto: Narrian Gomes

Tendo por tema principal “As Cavalhadas de Amarantina”, o Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade em 2019 traz um toque cultural muito próprio, voltado às raízes do povo mineiro. Sendo as manifestações religiosas uma caraterística muito forte na cultura de Minas Gerais, as celebrações congadeiras recebem espaço em nossa programação.

O Congado são manifestações culturais religiosas afro-brasileiras, que datam do início das Minas Gerais coloniais, quando os primeiros africanos em situação de escravidão chegaram ao Estado. Proibidos de exercer sua própria fé, esses grupos, por meio do sincretismo religioso,  fazem uma união dos cultos católicos aos africanos, e passam a atribuir aos santos católicos os nomes dos orixás a quem serviam, na intenção de continuar a cultuá-los mais abertamente. E é em uma dessas manifestações de adoração que o congado surge. Os congadeiros têm por padroeira principal Nossa Senhora do Rosário e fazem festas a ela em agradecimento e memória da proteção ofertada aos escravos negros no passado. O conto de Chico Rei também incentiva as manifestações culturais de congadeiros em Minas, mesmo sem a certeza se a história ocorreu de fato. Segundo o que é contado, Chico, antes rei de sua tribo no Congo, foi capturado e vendido como escravo em Minas Gerais. Depois de anos de trabalho árduo, ele conseguiu comprar a sua alforria e de muitos próximos a ele, sendo aclamado entre essas pessoas. Cortejos em homenagem a Chico Rei acontecem ainda hoje.

Os cortejos e festas de congado envolvem muita dança e cantoria e são acompanhados por instrumentos de corda e batidas rítmicas nas caixas musicais e chocalhos. Roupas e fitas coloridas são também elementos muito característicos, carregando cada cor e forma com significados diferentes. A presença de vestimentas adornadas com penas e cocais também é bastante comum, fazendo menção às conexões e raízes indígenas do povo brasileiro. Todas essas características, juntas, reforçam um momento de celebração e muita alegria em devoção a Nossa Senhora do Rosário, além da volta às origens, relembrando o sofrimento do negro escravizado e os agradecimentos por dias melhores que estariam por vir. O congado é realidade geracional, em que os costumes passam de pai para filho e assim se mantém vivos, na busca pela valorização do congado como patrimônio imaterial.
 

A primeira parte da oficina “Das Contas do Meu Rosário e das Notas do Meu Congado” aconteceu no dia 8 de julho, ministrada por integrantes do projeto de extensão HH Magazine: Humanidades em Rede. A atividade começou com a apresentação do documentário “Congadeiros”, produzido pela TV Ufop. A apresentação do documentário resultou em discussões e no desenvolvimento de um roteiro, que guiará a criação de pequenos podcasts em que moradores da comunidade Rosário, em Mariana, contarão a sua experiência com o congado. 

“Eu ter liberdade de pegar minha caixa e bater ela com toda minha força, é liberdade. Hoje não se fala tanto de liberdade de expressão? O congado é liberdade. Dos negros de expressarem, de colocarem pra fora os toques que eles já sabiam. Eu não acredito que os nossos toques sejam idênticos aos da África, mas são o que os nossos antepassados trouxeram de lá pra cá, que são continuados até hoje”, afirma Solange Palazzi, da Comissão Ouro-pretana de Folclore, no  Documentário “Congadeiros”.

Todas as atividades da oficina foram realocadas permanentemente para as dependências da Universidade Federal de Ouro Preto em Mariana, no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), sala 415, bloco dois. Com as mudanças de local, a continuação da oficina aguarda uma nova data. A você, interessado em participar, fique atento à programação que pode ser encontrada no site oficial do Festival de Inverno, www.festivaldeinverno.com