Preservação das manifestações culturais tradicionais é tema Seminário “As cavalhadas e o Tropeirismo nas Minas Gerais"

Julho 24, 2019

Foto: Gabriela de Lima Gomes

Texto: Raíssa Lessa

O Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade trouxe o diálogo sobre a valorização da cultura sertaneja para a sua edição de 2019. Uma das ações nesse sentido foi o seminário “As cavalhadas e o tropeirismo nas Minas Gerais”, no dia 19 de julho, no Centro de Convenções da UFOP, em Ouro Preto. O evento foi promovido pelo Conselho Municipal de Políticas Culturais (CMPC) e contou com palestras de estudiosos e conhecedores das duas manifestações culturais.

A primeira a palestrar foi a folclorista e professora de cultura mineira Deolinda Santos, que conduziu o painel “Diálogos com os Sertões das Gerais”, tema desta edição do Festival de Inverno. Ela falou sobre o surgimento do tropeirismo nas Minas Gerais, no período da intensa atividade mineradora de ouro no Estado, quando foi necessário transportar alimentos e matéria prima (tabaco, carne, aguardente e frutas) para áreas que ficaram devastadas. Deolinda também ressaltou a influência portuguesa trazida pelos bandeirantes nas festas religiosas, como a cavalhada, a folia de reis e demais festejos, e como os tropeiros foram agentes importantes na disseminação destas culturas no interior do estado.

Na sequencia, a professora do curso de Museologia da UFOP Yara Mattos falou sobre “As Tropas e Traias da Serra de Ouro Preto”. Para ela, é muito importante trazer as discussões suscitadas no seminário para eventos como o Festival de Inverno. “É uma oportunidade de interagirmos com as pessoas da cidade, dos distritos e de outros estados. Essa troca cultural, para mim, é muito importante”. Em sua palestra, Yara evidenciou a importância do tropeirsmo para a interação comercial entre os morros e o centro de Ouro Preto. Ela também explicou o trabalho que faz para a “ressignificação da identidade tropeira na comunidade dos Morros da Queimada, São Sebastião, Santana e São João”, com o projeto de extensão da UFOP “Ecomuseu, surgido em 2005propondo a museologia comunitária e o desenvolvimento local do patrimônio imaterial voltado para a própria comunidade.     

Filha e neta de tropeiros, Vanilda Cláudia Alves, chamada de “Nida”, iniciou sua apresentação contando sobre a rotina de seu pai na profissão. Ele descia o Morro São Sebastião transportando, no lombo dos burros de sua tropa, lenha e carvão. Para manter viva a tradição tropeira, ela e alguns amigos, também com antepassados no ofício, formaram o grupo Tropeiros da Serra de Ouro Preto, com sede no Espaço Cultural Cores, Flores e Sabores (Bar da Nida), no Morro São Sebastião. “É uma forma de mostrar para as pessoas o resgate que fazemos dessa tradição, para não deixar ela se perder no tempo”. Ela conta que, no local, também são oferecidas oficinas e exposições sobre tropeirsmo e, todos os anos, no mês de março, o grupo organiza a Festa do Tropeiro, uma cavalgada que desfila pelas ruas de Ouro Preto e termina com uma grande festa, regada a forró e banquete de comidas típicas.

Encerrando as atividades da manhã, o historiador e arquiteto analista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), João Paulo Martins, apresentou o painel “O registro e a salvaguarda das cavalhadas”. Ele falou  sobre a importância do reconhecimento das Cavalhadas como patrimônio imaterial. O processo de registro do festejo junto ao Iphan possibilitou revitalizar a indumentária utilizada pelos cavaleiros, o campo, as tribunas e a construção de arquibancadas para o público, além de “salvaguardar a produção” da festa.

Rodrigo Sales, presidente do CMPC e mediador da mesa, enfatiza a notoriedade da cavalhada e do tropeirismo como manifestações culturais duradouras e formadoras de cidades como Ouro Preto e ressalta que, por ocorrerem de forma descentralizada, fora do centro histórico, muitas pessoas ainda as desconhecem. “Ao trazer esse debate para o Festival de Inverno, as pessoas vão passar a conhecer ou ter uma nova visão do que são a cavalhada e o tropeirsmo, e, assim, vão começar a valorizar essas culturas”, conclui.