Vestígios e nostalgia marcam os dez anos do Coletivo Anticorpos

Julho 16, 2022

Emanuel Silva

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O Núcleo de Investigação em Dança – Anticorpos comemora dez anos com a “Ocupação Anticorpos” na programação do Festival de Inverno de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade. Além das performances pelas cidades, a instalação está localizada no salão Diamantina, no Centro de Convenções, e conta com as exposições artísticas de alunos, ex-alunos e convidados. 

O grupo de pesquisa teórico-prático do Departamento de Artes Cênicas (Deart/UFOP) teve início em 2012, sob a coordenação do professor Éden Peretta, e tem como matriz poética de pesquisa o Butoh, famosa dança japonesa. Após esses anos, diversos estudantes e colaboradores passaram pelo coletivo. Dessa trajetória, foi pensado o conceito da comemoração de dez anos. Éden Peretta conta que a ideia foi trazer os trabalhos atuais e antigos dos artistas que participam ou já participaram do Anticorpos para observar a experiência formativa no processo de criação artística. “É um pouco a impressão de que alguns vestígios ficaram ali, alguns princípios da investigação que a gente colocava dentro do Anticorpos se preservam no trabalho novo dessa pessoa”, explica o professor. 

Os trabalhos expostos contam com teatro, dança, imagens, performances, vídeos instalações, shows e oficinas. O coordenador explica que as artistas que não conseguiram comparecer nos dias da Ocupação (de 8 a 13 de julho) participaram com “projeções, vídeos, artes, vídeos documentários e experiências videográficas”. 

Para Vina Amorim (25), dançarina, arte-educadora e colaboradora do Anticorpos, "comemorar esses dez anos é um pouco do que o coletivo é e como, de alguma forma, ele está nessas pessoas que passaram e que trouxeram o trabalho delas para a gente ver.”


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Os artistas e Ouro Preto
O espaço aberto pelo Anticorpos permite a experimentação dos artistas que atuam ou já atuaram no coletivo, assim como os de fora do ambiente da UFOP. Uma das exposições na ocupação é a do artista Caio Mateus intitulada “Assembleia do Progresso”. A instalação apresenta 180 desenhos de rostos masculinos deformados, inspirados na reconstrução facial de soldados mutilados na I Guerra Mundial. O trabalho é feito em folhas A4 e explora a pintura e o desenho. 

Caio descreve que não está matriculado na UFOP, mas foi convidado por um amigo que participou do coletivo e via ligação no trabalho do artista com as trabalhadas no grupo. “Eu acho que a Universidade abre essa porta que é muito importante para mim, mesmo não estando inserido nela, esse espaço para eu experimentar”.

O libreto radiofônico “Por onde andará Clara Crocodilo?”, desenvolvido pela turma 70 da Escola de Arte Dramática da ECA-USP, também foi apresentado na ocupação por meio da ponte feita por uma ex-integrante do coletivo. O libreto foi pensado com base no trabalho de Arrigo Barnabé “Clara Crocodilo”, que, por coincidência, tinha sido pensado para ser apresentado no próprio Festival de Inverno de Ouro Preto, segundo o próprio Arrigo. 
Carmina Juarez, professora e diretora, destaca o processo e o significado de ter se apresentado no Festival: “Me sinto honrada mesmo de ter chegado aqui. Foi um processo complexo, muito trabalhoso e que envolve muita escuta, muita delicadeza, porque ele foi feito virtualmente. Foi em um momento que as pessoas já estavam todas esgotadas desse recurso. 

A cidade de Ouro Preto também é um fator que perpassa outras obras na ocupação.  As artistas Nathane Nathânia e Rodriany Mendes apresentaram a videodança “Ser montanha”, trabalho contemplado pelo prêmio Funarte RespirArte, que fala sobre a despedida de Nathane da cidade que tem suas montanhas muito marcadas. “Rolou um convite para a gente se reencontrar e se despedir. Aí a gente teve essa ideia de fazer uma videodança”, lembra Rodriany. 

Nathane ministrou a oficina de rebolado, com Nanda Bacha, afirma que o rebolado não era um trabalho envolvido com o coletivo, mas que conta com os vestígios do que aprendeu. “Esse trabalho, de certa forma, foge um pouco do que a gente fez no Anticorpos, mas ainda é corpo. É o nosso corpo em expressões, em outras linguagens. Foram as linguagens que começaram a me atravessar depois que eu saí do Anticorpos”, complementa.

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Já Daniela Mara, atriz, dançarina e pesquisadora no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas (PPGAC), também tem suas obras atravessadas pela cidade de Ouro Preto. A atriz performou no Horto dos Contos a obra autoral “Siaburu”, que parte das memórias de infância, da lembrança dos cantos dos pássaros e da denúncia na ausência de alguns corpos na sociedade. “No Horto dos Contos, foi um processo de sentir a abundância dessa presença do corpo, buscar um devir, devir Siaburu. O espaço me convida para mover, e eu sou movida pelos espaços e os pássaros ficam mais próximos”.

A pesquisadora também fala sobre o misto de sentimentos que é participar do Festival de Inverno devido à sua relação com o espaço. “Eu me formei aqui, transitei por esse espaço em outros momentos e, agora, estar em um processo de pesquisa, junto ao PPGAC e ao coletivo Anticorpos, que é onde eu me formo e me reformo, é um eterno aprendizado.”

Vina Amorim também comenta sobre a felicidade de compartilhar a estreia do seu solo “ELA” em Ouro Preto, no Festival. O projeto está vinculado ao mestrado da artista e trata a morte como luto na sociedade que é estruturada pela necropolítica. “Estrear aqui [no Festival] para mim é muita alegria, poder compartilhar com as pessoas que me conhecem desde que eu cheguei em Ouro Preto ou que têm um carinho e conhecem minha história”, avalia a artista e estudante da UFOP.